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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Brindar à Vida

No passado dia 12 fui à consulta de grupo, que é a última deste ciclo de 5 a 6 anos em que se é seguido periodicamente no hospital na consulta de senologia (ancro da mama) a que fui operada. Tudo continua bem, e agora passarei a ser seguida apenas anualmente.

É sempre motivo de grande alegria quando recebemos uma boa notícia, e esta é uma boa notícia: esta batalha está ganha, mas a "guerra" ainda não, pois é necessário continuar vigilante.

Todas as vitórias são boas, mas esta é-o particularmente, porque combatemos num combate desigual e não sabemos como sairemos "disto".

Este dia foi especialmente feliz para mim por tanta coisa bonita que pude sentir e experenciar: a alegria dos colegas de trabalho, os beijos e abraços recebidos por esta vitória; as mensagens recebidas de familiares e amigos; o abraço caloroso do meu marido quando cheguei a casa, ele que viveu de uma forma tão intensa esta minha doença e que comigo partilhou este caminho; o perceber melhor que, na realidade, é etapa a etapa que vencemos as dificuldades e que nelas podemos descobrir pequeninas luzes que nos fazem ir até ao infinito, isto é, até ao limite das nossas forças, acreditando sempre que a Esperança é possível, embora tenhamos sempre que ter a consciência de que também a derrota pode fazer parte deste percurso, mas que também aí é ela que nos faz mover céus e terra nesta luta que travamos dia-a-dia.

Depois, em família, pude sentir o amor dos que também comigo partilharam esta etapa: irmãos e sobrinhos que comigo quiseram brindar à vida fazendo festa por esta vitória. Uma das minhas sobrinhas fez questão de fazer algo especial para mim. E foi tão bonito receber este gesto. Fez um pão, que entendo como sinal de alimento físico, mas também, e sobretudo, do Espírito de Amor que a cada momento se manifesta em nós e nos diz que não estamos sós e que vale a pena acreditar. São pequenos gestos destes que nos enchem o coração e nos dão ainda mais razões para querer viver.

A vida é tão bonita de se viver! Encontremos nos pequenos pormenores as razões para a abraçar e cantar. Veremos que tudo se transforma. Até o nosso coração.



segunda-feira, 27 de maio de 2013

Aprender a Paciência


“O Amor é paciente, a caridade é benigna.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”
(1)




O nosso tempo corre depressa. As pessoas andam de um lado para o outro quase que sem destino, sem saberem para onde ir. Não há tempo a perder, é preciso atender a mil e uma tarefas que ainda há para cumprir em mais um dia que mais parece ter mais do que 24 horas. E no meio de toda esta azáfama tantas vezes dizemos e ouvimos dizer: “Não tenho paciência”; “Não há paciência para isto”.

E eu pergunto-me: que fazemos nós da paciência? Como a cultivamos no nosso coração e nas nossas vidas?

Olho a natureza como ela nos brinda com paisagens tão belas, que eu me pergunto como é que isto foi possível? Será obra da pressa ou da paciência?

Durante um passeio observo um campo enorme de pequenas flores amarelas e vou às raízes da formação daquela beleza: a pequena semente que é deitada à terra e germina ao seu ritmo, e, aos poucos e poucos, vão aparecendo os primeiros sinais de vitalidade, de que “pegou” à terra, que vamos ter flor! Continua no seu ritmo a crescer e começa a surgir o caule com as primeiras folhas. A seiva que corre dentro de si alimenta a planta e ela vai crescendo até que, finalmente, surge a tão desejada flor. É um processo lento, mas tão belo e cheio de vida.

Se olharmos para nós, como é que nos vemos? Que paciência temos connosco? É que muitas vezes queremos tudo muito perfeitinho, tudo a “bater” certo, sem nenhuma falha, assim tipo puzzle onde as peças encaixam umas nas noutras e fica um desenho maravilhoso. Ora, se temos a paciência de estar horas a fio a fazer o puzzle que não passa de uma simples distração, porque não havemos de ter essa mesma capacidade para nós? Ninguém nasceu perfeito por isso, é preciso aceitar e assumir os nossos limites para, de seguida, sermos capazes de valorizar os talentos que temos e, com surpresa, veremos que nos tornamos em pessoas mais felizes e, porque nos amamos, temos uma maior capacidade de Amar o outro.

Transportando isto para as nossas vidas, questiono-me sobre a paciência que temos com os outros, e de que tipo é essa paciência: será uma paciência ao nosso jeito, em que tudo tem que estar dentro dos nossos parâmetros e as pessoas têm que andar ao nosso ritmo; ou pelo contrário, somos nós que temos que andar mais devagar, perceber e respeitar mais, muito mais, o ritmo dos outros?

É que às vezes queremos fazer tanto pelo outro, ajudá-lo a dar passos na sua vida, queremos libertá-lo de tantas angústias, tristezas e privações, que parecemos as ervas daninhas que abafam a flor e não a deixam crescer, não permitindo que o outro emirja, cresça verdadeiramente e assuma a sua vida nas suas próprias mãos.

O respeito pelo outro exige de nós muito cuidado com a forma como lidamos com ele, como permitimos que ele cresça, faça o seu caminho. Não nos basta dizer que Amamos temos primeiro que respeitar.
Deus fez-nos livres e dá-nos a possibilidade de escolhermos entre o bem e o mal e não é por isso que deixa de nos Amar ou que nos abandona, pelo contrário, continua sempre do nosso lado. Tem uma paciência e um Amor infinito por cada um de nós.

Tu és o meu filho muito amado, em ti ponho todo o meu encanto, todo o meu enlevo (2). Ora, se Deus diz isto a cada um de nós, que somos seus Filhos Únicos, porque não há outro como nós, também deve ser esta a medida do Amor e da Paciência que devemos ter para com o outro, porque também ele é Filho Único de Deus.



Paula Constantino

(1) 1ª Carta aos Coríntios 13, 4, 7;
(2) Mateus 17, 5

quinta-feira, 9 de maio de 2013

"Tu és minha!"



Diz o Senhor ao Seu Povo:
"Passei diante de ti, e vi-te: era o tempo dos amores.
Então fiz-te um juramento, fiz uma Aliança contigo!
E disse-te: És minha!" (Ez. 16, 8)



O meu dia hoje despertou-me assim suave e cheio de Amor!

 Que Amor este que passa diante de mim e estabelece comigo uma Aliança, fixa o seu olhar e mim e não mais me abandona!

 É assim o Amor do nosso Deus por cada um de nós. Faz Aliança connosco e jamais nos esquece e larga.
Deus promete-se a mim e a cada um de nós, compromete-se a mim e a cada um de nós, e faz de mim e de cada um de nós seus prometidos. Num SIM permanente que nos procura e desafia a cada instante da vida a descobrirmo-nos Únicos, seus Filhos Únicos, porque não há mais ninguém como nós e é a nós que ele quer amar sem medida. E por isso nos diz com um imenso Amor: “Tu és o meu Filho, o meu Filho muito amado. Em ti eu ponho todo o meu encanto”.

Ternura imensa a de Deus para comigo, para com cada um de nós. "Eis-me aqui", significa o meu SIM ao projecto que ele quer construir comigo, num diálogo e encontro permanentes, que me desafiam e procuram a cada instante, nos irmãos que coloca no meu caminho.




quinta-feira, 4 de abril de 2013

Acreditar sempre!

Hoje, mais do que nunca, apetece-me cantar: Vitória!

Foi precisamente neste dia, mas há 5 anos, que fui operada a um cancro da mama. Já aqui partilhei isso convosco.

E, se há motivo para me alegrar, para partilhar convosco, este é um deles. Um enorme motivo.

Passar pela experiência da impotência, da incerteza, da angústia, do medo, dá-nos a capacidade de nos percebermos pequenos e ao mesmo tempo fortes. Pequenos porque percebemos a fragilidade da vida humana e de como tudo pode terminar num instante, quando ainda tantos sonhos e projectos estão na nossa cabeça a burilar. Fortes, porque, como diz S. Paulo: "Quando me sinto fraco é que sou forte" porque, tomando consciência da minha pequenez, sou capaz de entender que a vida não depende de mim, que apenas me foi confiada por um instante, o tempo necessário para fazer aquilo que me é pedido.

Esta experiência da dor, de incerteza, da impotência, não é de modo algum um obstáculo a que sejamos felizes, pelo contrário, é um caminho para a nossa felicidade. Não que seja bom passar por ela, mas pelas ocasiões que nos proporciona de aprendizagem, de amadurecimento, de sabedoria e pela força que uma experiência destas nos dá.

Viver esta experiência permitiu-me também perceber melhor o que é essencial e deixar o que é supérfulo, porque quando não se tem saúde parece que não se tem mais nada, tudo é efémero, mas é quando a vida está, muitas vezes, a nascer, porque é precisamente a partir daquele momento que renascemos, que ganhamos uma vida nova, tudo muda.

Aprendemos a humildade, a paciência, a ternura, o Amor, porque descemos ao mais pequenino que somos e temos, descemos ao nosso nada, e isso faz crescer em nós uma capacidade enorme de luta e de força que não sabemos de onde vem, nem para onde vai. Estamos apenas naquele momento e naquelas circunstâncias.

Passamos também, e muito, pela Esperança. Acreditar que é possível tornar este momento menos doloroso, vencer em vez de ser vencido, tendo a consciência plena de que se está numa luta desigual. Mas é possível, por isso vamos à luta.

E percebemos também que não estamos sós. Para além da nossa família e amigos, apoios fundamentais nesta experiência, há alguém, Jesus, que também passou pela experiência da dor, do sofrimento, do abandono, mas que foi até ao fim e venceu. Foi fiel ao projecto de Deus sobre Ele e não foi derrotado, pelo contrário, venceu. E esta certeza de que não estamos sós, de que "Eu estarei convosco até ao fim dos tempos", que nos dá a força para permanecer diante dos desafios desta experiência com a serenidade necessária para vencer o que for preciso, nem que seja a morte. Porque a força do Amor tudo pode nAquele que pode tudo, mas não pode contudo, porque quer precisar de nós para o seu projecto de salvação da Humanidade.

Foi esta a força que me fez entregar a esta experiência com toda a minha alma, com tudo aquilo que sou e tenho, e colocar-me também nas mãos dos médicos e confiar, nunca deixando de acreditar que estão também do nosso lado e que tudo fazem para que a nossa vida não se perca.

Quando partilho esta experiência lembro sempre aqueles e aquelas que lutaram e acreditaram que era possível vencer, mas para quem a doença foi mais forte do que elas e as fez partir cedo demais. A sua força e a sua coragem ficam na minha memória como testemunho de vida a partilhar. E foram alguns os que vi desaparecer durante este tempo. Para eles a minha profunda homenagem.

Àqueles que vivem esta experiência uma palavra: nunca desistam de viver, nunca desistam de lutar, mesmo que não seja possível vencer. Vale sempre a pena acreditar, vale sempre a pena ter Esperança que, como costumamos dizer: "é sempre a última a morrer".



quinta-feira, 28 de março de 2013

“Fazei  ISTO em minha Memória!”




Acredito…
Este ISTO como a Vida DADA de um Homem - a VIDA do Yeshua/Jesus, o de Nazaré! Uma vida plena de Filiação e de Graça que aponta para um Mistério de tal modo desmedido que, mergulhados nele, nenhum de nós viverá em vão os dias da História!
Acredito que este ISTO reveste de Eternidade a Mesa que nasce das nossas pequenas mesas à volta das quais os Irmãos se sentam e, comungando afetos e sonhos, gostos e segredos, se vão fazendo aprendizes de Humanidade, na Fé de um Deus Fiel… até ao FIM!

À luz… 
deste ISTO contemplo o concreto das vidas de milhões de homens e mulheres que, com credo ou sem ele, todos os dias, silenciosamente, (se) partilham a Vida na Alegria e na Dor.
É à luz deste ISTO que me sinto provocada pelo Amor que, em rede de irmãos, enfrenta a maldade que gera escravos e continua a escrever “Actos” com sangue de mártires e gestos de desmedida Humanidade…

ISTO 
me dá a certeza da contemporaneidade desse Jesus Nazareno que continua por aí repartindo pão e lavando todos os pés cansados de pisar o lodo da desHumanidade que teima em matar quem a faz e quem a sofre.
ISTO me aponta um jeito de viver onde apareça e(in)scrito que nem as ervas amargas do sofrimento, nem o sal das lágrimas do desespero são para sempre… Um jeito de viver que Salva e que Liberta!

A este ISTO quero entregar-me e, por tudo ISTO Te BemDigo, Senhor nosso Deus!
De cálice a transbordar do Vinho da Alegria brindo a esta Trilogia Sagrada:

“À VIDA, À LIBERDADE, À SALVAÇÃO!”

Texto de Glória Marques publicado hoje, dia 28 de Março, Quinta-feira Santa, no blog "Derrotar Montanhas"

terça-feira, 19 de março de 2013

Dia do Pai

Hoje pela manhã olhei para o céu e vi-te no nosso astro rei, o sol, cheio de luz resplandecente em direcção ao meu coração.
Olhei para ti, sorri e envie-te um beijo e, uma vez mais disse: obrigada pela tua vida, pelo teu imenso amor, por continuares presente na minha vida.
Obrigada por continuares a enviar aí do céu os teus "pedaços" de chocolate: os teus sussurros que me guiam o coração e me fazer acreditar que continuas bem presente.
Beijo-te com uma imensa saudade.



sábado, 16 de fevereiro de 2013

Que fazemos do outro?

“Curando as feridas da terra, estaremos a curar as feridas do nosso próprio coração”, dizia Wangari Maahai, Prémio Nobel da Paz.


Lembrei-me desta frase quando esta semana recebi um telefonema de uma familiar para “entrar” na corrente para ser presença junto de uma amiga de infância que sofreu um acidente em casa e partiu uma perna. Tem oitenta e alguns anos, agora vive sozinha, por isso, ter que ir para um hospital e de lá para uma casa de acolhimento até se restabelecer, tudo é novo e nem sempre fácil. É por isso preciso estar atento e presente.


Este convite fez-me, uma vez mais, soar a campainha e perguntar-me: que fazemos do outro? Será que estamos sempre disponíveis para visitar, telefonar, enviar uma palavra, enfim, ter um pequeno gesto com os que estão mais sós? Será que estamos atentos àqueles que passam por nós em cada dia e esperam de cada um de nós um sinal de “disponibilidade” para si? Ou ficamos tantas vezes presos ao nosso comodismo, procurando a todo o custo abafar a voz que dentro de nós nos inquieta e clama por acção?


Curar as feridas da terra significa termos a capacidade de ir para além das nossas dores, do que é nosso, do nosso egoísmo, para “curar” as feridas que tantas pessoas têm dentro de si, feridas que a vida lhes colocou no caminho e para as quais têm dificuldade em encontrar a “cura”, e que, por isso, a buscam nesses pequenos nadas que são tanto para si. Curar as feridas do nosso coração significa que nos abrimos mais ao outro, que fomos capazes de sair de nós mesmos para irmos ao encontro daquele que é igual a nós, e aí descobrir “as fontes da alegria e da esperança, que se encontra em Deus, que gostaríamos de transmitir”, diz-nos o Irmão Roger.


“Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo” (Jo. 15, 12) é o caminho que Jesus nos indica para “curar” as feridas. O amor ao próximo tem que ser ao jeito de Jesus, isto é, verdadeiro e sem esperar recompensa, para que “surta” os seus efeitos.


O caminho não é fácil, por isso é que vale a pena percorrê-lo. 









sábado, 21 de julho de 2012

A imposição das mãos

Por razões de saúde hoje fui a um médico homeopata e pelo caminho fui a pensar no que talvez me acontecesse na consulta, pois sabia de antemão que o médico trabalha muito com as suas mãos.

Ia fisicamente exausta. Já tinha dificuldade em ouvir as pessoas, a música de que tanto gosto e de ser capaz de estar minimamente com alguém, prestando-lhe a atenção e respeito que me merece qualquer pessoa.

Para me tratar o médico serviu-se unicamente das suas mãos. Foram o seu instrumento de trabalho. Descontraí, e coloquei-me nas suas mãos. Desprendi-me, e lancei-me na aventura de me deixar embalar por tão simples, mas tão doce e intenso instrumento de trabalho. Foi interessante sentir do que são capazes, e o que procuram transmitir.

Com simples e delicados toques em determinados, mas sábios pontos do meu corpo, o médico foi-me passando a sua energia positiva, tornou possível que toda eu me sentisse bem e percebesse as sensações que o meu corpo ia sentindo à medida que eu relaxava e descontraia. Sentia um intenso formigueiro dentro de mim, que me dizia que aquelas mãos tinham conseguido "libertar-me" de tensões, stress, cansaço, enfim, tantas coisas que carregamos no nosso corpo, que nos impedem de nos sentirmos bem connosco próprios, com os outros e com Deus.

Percebi o porquê de em tantos momentos da nossa vida as mãos serem um dos elementos mais importantes: porque através delas nós passamos aos outros a alegria que nos contagia, o Espírito Santo que nos desassossega, interpela e faz anunciar a Boa Nova aos pobres. Jesus era um homem simples, e como tal, servia-se das coisas simples para comunicar com os Homens. Ele não trouxe o poder nas mãos. Veio de mãos vazias, para que estivesse inteiramente disponível para amar os mais pequenos. E foi assim que nos ensinou o que é o Amor, o que é amar o próximo como a nós mesmos.

Percebi o que é "colocarmo-nos" nas mãos de Deus. Ele dá-nos "colo" quando nos escuta, quando nos ensina o caminho, quando nos mostra a maneira como devemos Amar. É este colo que todos devemos querer e partilhar com os outros. Partilhar com eles a bondade  e as maravilhas que ele opera em cada um. Sentindo-nos assim amados, leva a que outros queiram também partilhá-lo com outros e deste modo o mundo vai-se transformando e torna-se num verdadeiro "colo" para toda a Humanidade.

Sejamos, pois, portadores desse "colo" à Humanidade através das nossas mãos que abraçam, que se abrem, que se entrelaçam, que acolhem.

Para todos e cada um deixo uma mão cheia de ternura serenidade.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Em memória da minha Mãe


O CERCADO

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó


Onde está a panela do provérbio, mãe

a das três pernas

e asa partida

que me deste antes das chuvas grandes

no dia do noivado


De que cor era a minha voz, mãe

quando anunciava a manhã junto à cascata

e descia devagarinho pelos dias


Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe

se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera

p'ra lá do cercado

PAULA TAVARES, in DIZES-ME COISAS AMARGAS COMO OS FRUTOS (Ed. Caminho, 2011) 

Aqui fica a minha homenagem à memória da minha mãe, no dia em que faz 2 anos que entrou na Casa do Pai. Sei que está bem e isso é o mais importante. Continua a brilhar em mim a luz da sua estrela, que todos os dias ilumina o céu.
Como era tão bonita!

 

domingo, 8 de julho de 2012

De que mundo somos?


Este foi o desafio lançado à Luísa e ao Valentim que durante um ano trocaram os seus olhares para o mundo que nos rodeia, tentando nesse exercício da escrita, mostrar-nos com o seu “ver para além do olhar” o modo como o sentem e vivenciam nos lugares onde vivem e pelos caminhos que percorreram e percorrem a Esperança que abunda nos seus corações e de que são eternos crentes de que ela é sempre possível.

E depois de um ano de troca de experiências juntaram um grupo de pessoas para refletir com eles este tema, para que em conjunto fizéssemos uma avaliação e encontrássemos pontos de convergência e nos colocássemos a nós próprios esta questão, no sentido de buscarmos um sentido para as nossas vidas.

Foi um dia em que a natureza que nos rodeava nos brindou com sua candura e ternura, e com a sua magia nos “assegurou” o silêncio necessário aos nossos corações para podermos partilhar tranquilamente.

E ouvimos coisas muito interessantes que não nos deixaram indiferentes e que, por isso, nos interpelaram e nos fizeram “olhar” o nosso interior para “vermos e depois agirmos”. Eis alguns dos desafios lançados a cada um de nós:

  1. “Fomos treinados para agir; reunimo-nos para saber como o fazer, mas não agimos”.
  2. “Nós temos que estar sempre com as pessoas, não as podemos abandonar. Podemos não ter resposta no momento, mas não as podemos deixar de mãos vazias, isto é, sem um sinal de Esperança”, mas uma Esperança atuante, que vai, interpela, busca e envia para encontrar soluções, que ensina a pescar em vez de dar o peixe, porque a Esperança passiva, que fica à espera de que tudo se resolva, essa não chega a lado nenhum a não ser ao “deixa andar” que não é de modo nenhum solução para nada.
  3. “Temos que agir com o nosso testemunho vivo, com a nossa vida”, não basta falar, é necessário agir. Agir de acordo com os valores que para nós são fundamentais e inerentes à nossa missão, que é a de irmos ver onde estão aqueles que, como diz Jesus no evangelho de Marcos 6, 30-44, andam no mundo como que “ovelhas sem pastor” e que nele encontram o olhar, a palavra e a resposta para as suas fragilidades. E aí ele desafia-nos, como o fez aos apóstolos, quando estes lhe disseram: “A hora vai avançada e o sítio é isolado. O melhor é que os mandes embora, para que vão às aldeias comprar que comer”. Mas Jesus respondeu-lhes: “Dai-lhes vós mesmos de comer”, isto é, àqueles que nos procuram ou se cruzam nos nossos caminhos não podemos responder como os apóstolos: “manda-os embora”, pelo contrário, temos que ver o que temos para podermos partilhar: o nosso coração, os nossos bens, a nossa Esperança. Não ter medo de ver o que temos e, sobretudo, partilhá-lo por muito pouco que nos possa parecer aquilo que temos. E quando, finalmente, somos capazes de “ver o que temos”, o nosso coração enche-se de alegria, porque se conseguir transformar e perceber que com essa nossa atitude “todos comeram e ficaram satisfeitos, tendo as sobras recolhidas enchido doze cesto”, no mesmo evangelho de Marços.
  4. “É sempre necessário correr riscos, ser fermento, enquanto a nossa vida, pouco a pouco, se vai convertendo em caminho de confiança e em lugar de esperança na Vida. Nada é imediato, nas verdadeiras decisões humanas, naquelas de que resultam uma mudança profunda”. E com o profeta Jeremias nós aprendemos a verdadeira Esperança, ele que nunca se submeteu ao desânimo, nem se deixou vencer pelo desterro dos seus irmãos disse-lhes: “Construí casas e nelas habitai, plantai pomares e comei frutos, casai e gerai filhos e filhas” porque “Deus quer dar-vos um futuro de esperança”.
O caminho para começar a transformação dos nossos corações é sempre o mesmo: ir à fonte beber da verdadeira água, a água viva que nos faz ter confiança na vida.

Aqui deixo um resumo muito breve do que foi este dia, não sem antes lançar em jeito de desafio a mesma pergunta que foi colocada a todos os presentes, e que é a seguinte: “O que é para cada um de nós a Esperança?” Oxalá tenhamos a capacidade e coragem de “ir ver” o que somos e temos, porque “Quando sonhamos sozinhos, tudo não passa de um sonho. Mas, quando sonhamos juntos com alguém, então o que se sonhou começa a concretizar-se” (D. Hélder Câmara).

E termino com um texto que acredito que é a resposta às nossas inquietações:

“De onde nascemos? Do amor.
Como nos perderíamos? Sem amor.
O que no ajuda a vencer? O Amor.
Como encontrar o amor? Pelo amor.
O que nos enxuga as lágrimas? O amor.
O que deve unir-nos sempre? O amor.”






quinta-feira, 28 de junho de 2012

"Pensamos sempre que a dor só acontece aos outros, mas quando chega a nós é difícil"

Este foi o desabado que hoje ouvi da "Joana" (nome fictício), cujo pai, no alto dos seus oitenta e poucos anos se encontra gravemente doente.

Um cancro que se espalhou rapidamente tem feito com que ande pelos hospitais em consultas, exames, operação, etc, que todos sabem ser esforços infrutíferos dada a gravidade da situação, mas que ele insiste em realizar, pois não desiste de lutar pela vida.

A "Joana" acompanhou-o nestas duas últimas semanas e hoje, regressada ao trabalho, quando lhe perguntei como estava o pai ela respondeu: "Vai andando, já lhe disse que agora tem que viver um dia de cada vez", acrescentado de seguida: "Pensamos sempre que estas coisas só acontecem aos outros, mas quando chega a nós é muito difícil. Estes dias em que acompanhei o meu pai ao hospital vi coisas que me incomodaram muito".

A dor e o sofrimento fazem parte da nossa vida, mas temos sempre muita dificuldade em encará-los assim pelo medo que isso nos pode trazer, o medo da morte, por exemplo, e pelo que isso implica na nossa vida, pois não estamos, nem fomos, preparados para lidar com eles de uma forma natural, como algo que nos pode trazer uma nova visão e sentido da vida.

E quando estes acontecimentos nos surgem sem contarmos, em cada um de nós, em algum familiar próximo como é o caso da "Joana" ou em amigos, sentimo-nos "perdidos" e muitas vezes interrogamo-nos: "Porquê eu, o meu pai ou o meu amigo? Que mal fizemos? Deus está zangado connosco e agora "mandou" esta doença".

Está profundamente enganado quem assim pensa. Deus não quer para o Homem outra coisa senão a sua felicidade. Ele não é vingativo, porque se assim fosse não morreria na cruz. Deus está sempre presente na nossa vida, mas nós andamos muito distraídos com muitos apelos feitos pela sociedade que nem damos por Ele e pela sua presença em nós.

E é precisamente nestes momentos que Ele ainda está mais próximo de nós. Escuta o nosso gemido de dor e afaga-nos com os seus gestos de Amor realizados através dos médicos, enfermeiros, da família (nosso maior suporte) e todos aqueles que caminham connosco.

A dor e o sofrimento não nos são "dados" para sofrermos por sofrer, porque é bom sofrer para "ganharmos" o céu, como se Deus fizesse da nossa dor um "negócio" para nos "ganhar" para Ele. São-nos dados sim para crescermos interiormente,  como uma oportunidade para mudarmos a nossa forma de estar e encarar a vida, de estarmos mais atentos aos que mais sofrem, aos que estão sozinhos e que até ali nunca tínhamos dado "conta" de que também existiam.

Também eu já fui operada a um cancro. Felizmente tudo está a correr bem. E esse momento foi de uma dimensão enorme para mim por tudo o que vivi, experimentei e vi junto das pessoas que naquela altura também percorriam os mesmos caminhos. Foi uma excelente ocasião para avançar sem medo, de acreditar que era possível vencer, de confiar nos que me tratavam e sentir que não estava só, que Deus estava comigo e se manifestava de tantas maneiras através da presença da família, dos amigos, sei lá, tantas coisas.

A Esperança, a confiança, a alegria devem ser sempre nossas companheiras de caminho e, enquanto o vamos percorrendo se olharmos para trás veremos quem está ao nosso lado, quem pegou em nós ao colo e nos aconchega nos seus braços. Ficamos maravilhados, seduzidos!

A todos/as que passam por experiências duras nas suas vidas fica o meu abraço de solidariedade e o desejo de que todos/as saibamos abrir o nosso coração para que tudo siga ao seu ritmo e não ao nosso, pois só assim a natureza pode realizar-se plenamente.

Um abraço de amizade

terça-feira, 26 de junho de 2012

"Mãe, quando saires da cadeia não vais ter a mesma vida"

Foi com esta frase que o filho mais velho da "Isabel" (nome fictício) a interpelou um dia em relação à vida que levava (fruto de uma vida dura, com uma família destruturada, que a levou a ser colocada muito nova numa instituição para meninas abandonadas a fim de ser "educada para a vida") que a "Isabel", na cadeia a cumprir a pena a que foi condenada, fez desta contrariedade uma oportunidade para ter uma vida mais digna e tem procurado estudar, instruir-se para que, quando sair, possa ter uma vida diferente da que teve até agora, e assim responder ao apelo do filho.
A "Isabel" esteve nessa instituição algum tempo e, ainda antes de completar os seus 18 anos, decidiu partir em busca de uma vida melhor, da felicidade a que tem direito mas que a vida ainda não lhe tinha deixado experimentar. Contudo, os caminhos escolhidos e percorridos foram também eles desalinhados, porque a "Isabel" na sua ingenuidade e ilusão próprios da sua jovialidade e desejo de ter a sua vida própria, cheia de "facilidades", como ela própria o refere, viu-se metida por caminhos que não escolheu, mas foram os que a permitiram sobreviver.
Depois de um casamento falhado e de ter um filho ao seu cuidado, casou novamente e teve mais dois filhos. Só que a vida pregou-lhe outra partida e foi vítima de violência doméstica de tal forma grave que, desesperada, outra solução não encontrou senão a de terminar com a vida do marido.
A "Isabel" levou consigo os seus dois filhos pequenos e é tão interessante observar o seu amor por eles. Dentro do que lhe é permitido acompanha-os sempre, busca o melhor para eles, para que aquele lugar não seja para eles um lugar "mau", de onde a mãe não pode sair, mas um lugar onde podem fazer amigos porque vão à escola, conhecem outras pessoas e constroem os seus próprios mundos e sonhos.
 
Conheci-a pessoalmente no sábado, a sua "1ª saída precária", e aquela pessoa "franzina" fez-me reflectir sobre o sentido que damos à nossa liberdade, aos valores que tanto apregoamos aos outros, mas que tantas vezes não são o espelho da nossa vida. E nestes 4 dias de "liberdade" levou consigo os seus filhos, foi ao encontro do filho mais velho e estava feliz.
 
Faltam poucos meses para a "Isabel" sair da cadeia para uma nova vida.E a reflexão que eu faço é esta: o que fazemos nós para nos desprendermos de tantas coisas que nos levam a outros géneros de prisões e que nos impedem de mudar o nosso coração, de ter um outro olhar sobre a vida, sobre as pessoas que se cruzam no nosso caminho?
O que é para mim a liberdade, a justiça, o respeito pelo outro, pela sua dignidade, pela sua vida? O importante é ser capaz de aprender a não julgar, porque ninguém sabe o que vai dentro do outro e, se Deus não julga ninguém, antes acolhe, abraça e faz festa pelo regresso do filho de novo a casa, como posso eu pensar que posso "apontar" o dedo ao outro?
Libertemo-nos de juízos e preconceitos antecipados e renovemos o nosso coração. Dar-nos-emos conta como a nossa vida se transforma e nos sentimos mais úteis e felizes, porque também fizemos os outros felizes.

 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Espírito Santo, mistério presente em nós...

Espírito Santo, mistério presente em nós, a tua voz faz-se ouvir no fundo das nossas esperanças e das nossas penas. Tu dizes-nos: «Abre-te!» (11) Se alguma vez estivermos como que sem palavras, eis que, para orar, bastará uma só palavra..
11. Marcos 7, 34
Esta pequena meditação da Comunidade de Taizé interpelou-me. "Espírito Santo, mistério presente em nós" e eu pergunto-me: será que temos esta consciência de que o Espírito Santo está mesmo presente em nós e nos sussurra ao ouvido, mansamente, para que com toda a liberdade oiçamos o seu grito de desejo de que Lhe abramos a porta do nosso coração quando nos diz: "Abre-te!" e nos lancemos nos seus braços confiados em que não nos abandonará, que está sempre connosco?
Creio que é urgente tornar Jesus vivo nas nossas vidas. Não fazer dEle nenhum ser superior a nós, mas alguém que caminha a nosso lado, que nos ensina a ver este mundo e esta vida a partir das carências dos mais pobres; a partir da dor dos que sofrem e choram; a partir do trabalho dos que se comprometem para que exista a paz; a partir dos que são humilhados, se vêem perseguidos, insultados e caluniados, porque quando a vida é vista a partir destas situações, é vidente que cada um dá o melhor de si próprio: a sensibilidade diante do sofrimento e o protesto perante os causadores de tanta injustiça.

E assim, na medida em que formos capazes de ouvir o Espírito Santo presente em nós, dá-se a mudança de coração e o Amor surge como culminar deste encontro entre cada um de nós e Deus.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A minha alma tem sede de ti, Paizinho


É Paizinho, tem sido assim nos últimos meses. Fome e sede de Ti. O meu coração arde como uma sarça-ardente. A minha alma inquieta e em busca de Ti. Onde Te encontrar? Busco-te longe, fora de mim, mas afinal Tu estás dentro do meu coração. Tão pertinho que nem Te vejo por Te buscar onde sei que não estás. Descubro que, afinal, és Tu em mim que “ardes”, queres que Te abra a porta para poderes entrar e falar comigo, escutar-me.

Que privilégio o meu ter-Te como companheiro de viagem! Uma viagem que vem ainda antes de ter nascido e que continuará para sempre, porque Tu és carne e sangue da minha vida, ou seja, deste-te por mim, por todos os Homens. Não quiseste que ninguém fosse excluído. Foi com esse abraço que Tu, Paizinho, nos resgataste, nos ensinaste o que é o AMOR.

No caminho que queres percorrer comigo Tu convidas-me ao silêncio e à mudança de coração. No meio do ruído é impossível escutar-Te. Como é enorme a Tua sabedoria, Paizinho!

Atravessar a própria solidão” é o convite em jeito de desafio que Tu me lanças. Tal como o fizeste com os teus discípulos quando lhes disseste: “Lançai as redes ao mar”. Descobrir-me peregrina na terra, para poder ir ao mais profundo de mim mesma, requer “fazermo-nos ao caminho, adentrarmo-nos no desconhecido, sempre com humildade. Face ao insondável que nos habita, não há outra forma. (…) A solidão, ainda que tenha algo de vertiginoso, abre-nos as portas da nossa própria casa; convida-nos a entrar e a viajar até ao mais profundo do nosso coração. Creio que só nos lançaremos a esta viagem, quando a sede se torna insuportável. Resistimos até onde podemos!” (…) Quando nos decidimos a ir por dentro de nós é um sinal de que Deus nos precedeu com a sua graça e que, desde sempre, nos espera na nossa própria casa. Deus nunca se cansa de nos chamar à vida, a uma vida cheia, plena, e, por isso, espera-nos incansavelmente.” [1]

E a cada instante fazes-me perceber a Tua presença, o desassossego que provocas na minha alma para ir cada vez mais ao fundo de mim mesma sem medos nem ambições. Ir simplesmente, com humildade. E perguntas-me:

Acolherás o dia que chega como o «hoje» de Deus? Saberás descobrir despertares poéticos em cada estação, nos dias plenos de luz como nas frias noites de Invernos? Saberás alegrar a tua humilde morada com sinais que preencham o coração?” [2]

“Sem outras intenções, sem arrependimentos, sem nostalgia, acolhe os acontecimentos, mesmo os mais ínfimos, com infinita surpresa. Vai, caminha, um pé à frente do outro, avança da dúvida em direcção à fé e não te preocupes com as impossibilidades. Acende um fogo, utilizando mesmo os espinhos que te fazem mal.” [3]

Paizinho, é com esta certeza da Tua presença em mim, e vontade de fazeres caminho comigo que a minha alma se tranquiliza e serena e aceita com uma profunda liberdade e desejo de mudança a tua resposta à minha pergunta: “Mestre, onde moras?” a que Tu respondes: “Vem e segue-me”.

Já não é possível olhar para trás, olhar o arado e desistir. Agora é o momento de abandonar as dúvidas e resistências, para me tornar dom no meio do desconhecido.

Obrigada, Paizinho, por seres dom de vida feita Amor para mim, para todos os Homens. Obrigada por me acolheres e escolheres, mesmo com as minhas fragilidades Sou como um vaso de barro nas Tuas mãos e sei que me seguras cuidadosamente, com uma ternura e um Amor Infinito.

“Um sim a Deus para a vida inteira é fogo. Seis séculos antes da vinda de Cristo, o profeta Jeremias já tinha compreendido isso mesmo. Desanimado, dizia para consigo: «Não pensarei nele mais! Não falarei mais em seu nome!» Mas veio o dia em que teve o ensejo de escrever: «No meu coração, a sua palavra era um fogo devorador, encerrado nos meus ossos. Esforçava-me por contê-lo, mas não podia.» (6)
6. Jeremias 20, 9 [4]




[1] “Atravessar a própria solidão” – P. Carlos Maria Antunes
[2] “Viver para amar – Palavras escolhidas” – Irmão Roger
[3] “Viver para amar – Palavras escolhidas” – Irmão Roger
[4] Pequena Meditação Quotidiana da Comunidade de Taizé – 10 de Junho de 2012