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domingo, 8 de julho de 2012

De que mundo somos?


Este foi o desafio lançado à Luísa e ao Valentim que durante um ano trocaram os seus olhares para o mundo que nos rodeia, tentando nesse exercício da escrita, mostrar-nos com o seu “ver para além do olhar” o modo como o sentem e vivenciam nos lugares onde vivem e pelos caminhos que percorreram e percorrem a Esperança que abunda nos seus corações e de que são eternos crentes de que ela é sempre possível.

E depois de um ano de troca de experiências juntaram um grupo de pessoas para refletir com eles este tema, para que em conjunto fizéssemos uma avaliação e encontrássemos pontos de convergência e nos colocássemos a nós próprios esta questão, no sentido de buscarmos um sentido para as nossas vidas.

Foi um dia em que a natureza que nos rodeava nos brindou com sua candura e ternura, e com a sua magia nos “assegurou” o silêncio necessário aos nossos corações para podermos partilhar tranquilamente.

E ouvimos coisas muito interessantes que não nos deixaram indiferentes e que, por isso, nos interpelaram e nos fizeram “olhar” o nosso interior para “vermos e depois agirmos”. Eis alguns dos desafios lançados a cada um de nós:

  1. “Fomos treinados para agir; reunimo-nos para saber como o fazer, mas não agimos”.
  2. “Nós temos que estar sempre com as pessoas, não as podemos abandonar. Podemos não ter resposta no momento, mas não as podemos deixar de mãos vazias, isto é, sem um sinal de Esperança”, mas uma Esperança atuante, que vai, interpela, busca e envia para encontrar soluções, que ensina a pescar em vez de dar o peixe, porque a Esperança passiva, que fica à espera de que tudo se resolva, essa não chega a lado nenhum a não ser ao “deixa andar” que não é de modo nenhum solução para nada.
  3. “Temos que agir com o nosso testemunho vivo, com a nossa vida”, não basta falar, é necessário agir. Agir de acordo com os valores que para nós são fundamentais e inerentes à nossa missão, que é a de irmos ver onde estão aqueles que, como diz Jesus no evangelho de Marcos 6, 30-44, andam no mundo como que “ovelhas sem pastor” e que nele encontram o olhar, a palavra e a resposta para as suas fragilidades. E aí ele desafia-nos, como o fez aos apóstolos, quando estes lhe disseram: “A hora vai avançada e o sítio é isolado. O melhor é que os mandes embora, para que vão às aldeias comprar que comer”. Mas Jesus respondeu-lhes: “Dai-lhes vós mesmos de comer”, isto é, àqueles que nos procuram ou se cruzam nos nossos caminhos não podemos responder como os apóstolos: “manda-os embora”, pelo contrário, temos que ver o que temos para podermos partilhar: o nosso coração, os nossos bens, a nossa Esperança. Não ter medo de ver o que temos e, sobretudo, partilhá-lo por muito pouco que nos possa parecer aquilo que temos. E quando, finalmente, somos capazes de “ver o que temos”, o nosso coração enche-se de alegria, porque se conseguir transformar e perceber que com essa nossa atitude “todos comeram e ficaram satisfeitos, tendo as sobras recolhidas enchido doze cesto”, no mesmo evangelho de Marços.
  4. “É sempre necessário correr riscos, ser fermento, enquanto a nossa vida, pouco a pouco, se vai convertendo em caminho de confiança e em lugar de esperança na Vida. Nada é imediato, nas verdadeiras decisões humanas, naquelas de que resultam uma mudança profunda”. E com o profeta Jeremias nós aprendemos a verdadeira Esperança, ele que nunca se submeteu ao desânimo, nem se deixou vencer pelo desterro dos seus irmãos disse-lhes: “Construí casas e nelas habitai, plantai pomares e comei frutos, casai e gerai filhos e filhas” porque “Deus quer dar-vos um futuro de esperança”.
O caminho para começar a transformação dos nossos corações é sempre o mesmo: ir à fonte beber da verdadeira água, a água viva que nos faz ter confiança na vida.

Aqui deixo um resumo muito breve do que foi este dia, não sem antes lançar em jeito de desafio a mesma pergunta que foi colocada a todos os presentes, e que é a seguinte: “O que é para cada um de nós a Esperança?” Oxalá tenhamos a capacidade e coragem de “ir ver” o que somos e temos, porque “Quando sonhamos sozinhos, tudo não passa de um sonho. Mas, quando sonhamos juntos com alguém, então o que se sonhou começa a concretizar-se” (D. Hélder Câmara).

E termino com um texto que acredito que é a resposta às nossas inquietações:

“De onde nascemos? Do amor.
Como nos perderíamos? Sem amor.
O que no ajuda a vencer? O Amor.
Como encontrar o amor? Pelo amor.
O que nos enxuga as lágrimas? O amor.
O que deve unir-nos sempre? O amor.”






quinta-feira, 28 de junho de 2012

"Pensamos sempre que a dor só acontece aos outros, mas quando chega a nós é difícil"

Este foi o desabado que hoje ouvi da "Joana" (nome fictício), cujo pai, no alto dos seus oitenta e poucos anos se encontra gravemente doente.

Um cancro que se espalhou rapidamente tem feito com que ande pelos hospitais em consultas, exames, operação, etc, que todos sabem ser esforços infrutíferos dada a gravidade da situação, mas que ele insiste em realizar, pois não desiste de lutar pela vida.

A "Joana" acompanhou-o nestas duas últimas semanas e hoje, regressada ao trabalho, quando lhe perguntei como estava o pai ela respondeu: "Vai andando, já lhe disse que agora tem que viver um dia de cada vez", acrescentado de seguida: "Pensamos sempre que estas coisas só acontecem aos outros, mas quando chega a nós é muito difícil. Estes dias em que acompanhei o meu pai ao hospital vi coisas que me incomodaram muito".

A dor e o sofrimento fazem parte da nossa vida, mas temos sempre muita dificuldade em encará-los assim pelo medo que isso nos pode trazer, o medo da morte, por exemplo, e pelo que isso implica na nossa vida, pois não estamos, nem fomos, preparados para lidar com eles de uma forma natural, como algo que nos pode trazer uma nova visão e sentido da vida.

E quando estes acontecimentos nos surgem sem contarmos, em cada um de nós, em algum familiar próximo como é o caso da "Joana" ou em amigos, sentimo-nos "perdidos" e muitas vezes interrogamo-nos: "Porquê eu, o meu pai ou o meu amigo? Que mal fizemos? Deus está zangado connosco e agora "mandou" esta doença".

Está profundamente enganado quem assim pensa. Deus não quer para o Homem outra coisa senão a sua felicidade. Ele não é vingativo, porque se assim fosse não morreria na cruz. Deus está sempre presente na nossa vida, mas nós andamos muito distraídos com muitos apelos feitos pela sociedade que nem damos por Ele e pela sua presença em nós.

E é precisamente nestes momentos que Ele ainda está mais próximo de nós. Escuta o nosso gemido de dor e afaga-nos com os seus gestos de Amor realizados através dos médicos, enfermeiros, da família (nosso maior suporte) e todos aqueles que caminham connosco.

A dor e o sofrimento não nos são "dados" para sofrermos por sofrer, porque é bom sofrer para "ganharmos" o céu, como se Deus fizesse da nossa dor um "negócio" para nos "ganhar" para Ele. São-nos dados sim para crescermos interiormente,  como uma oportunidade para mudarmos a nossa forma de estar e encarar a vida, de estarmos mais atentos aos que mais sofrem, aos que estão sozinhos e que até ali nunca tínhamos dado "conta" de que também existiam.

Também eu já fui operada a um cancro. Felizmente tudo está a correr bem. E esse momento foi de uma dimensão enorme para mim por tudo o que vivi, experimentei e vi junto das pessoas que naquela altura também percorriam os mesmos caminhos. Foi uma excelente ocasião para avançar sem medo, de acreditar que era possível vencer, de confiar nos que me tratavam e sentir que não estava só, que Deus estava comigo e se manifestava de tantas maneiras através da presença da família, dos amigos, sei lá, tantas coisas.

A Esperança, a confiança, a alegria devem ser sempre nossas companheiras de caminho e, enquanto o vamos percorrendo se olharmos para trás veremos quem está ao nosso lado, quem pegou em nós ao colo e nos aconchega nos seus braços. Ficamos maravilhados, seduzidos!

A todos/as que passam por experiências duras nas suas vidas fica o meu abraço de solidariedade e o desejo de que todos/as saibamos abrir o nosso coração para que tudo siga ao seu ritmo e não ao nosso, pois só assim a natureza pode realizar-se plenamente.

Um abraço de amizade