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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Brindar à Vida

No passado dia 12 fui à consulta de grupo, que é a última deste ciclo de 5 a 6 anos em que se é seguido periodicamente no hospital na consulta de senologia (ancro da mama) a que fui operada. Tudo continua bem, e agora passarei a ser seguida apenas anualmente.

É sempre motivo de grande alegria quando recebemos uma boa notícia, e esta é uma boa notícia: esta batalha está ganha, mas a "guerra" ainda não, pois é necessário continuar vigilante.

Todas as vitórias são boas, mas esta é-o particularmente, porque combatemos num combate desigual e não sabemos como sairemos "disto".

Este dia foi especialmente feliz para mim por tanta coisa bonita que pude sentir e experenciar: a alegria dos colegas de trabalho, os beijos e abraços recebidos por esta vitória; as mensagens recebidas de familiares e amigos; o abraço caloroso do meu marido quando cheguei a casa, ele que viveu de uma forma tão intensa esta minha doença e que comigo partilhou este caminho; o perceber melhor que, na realidade, é etapa a etapa que vencemos as dificuldades e que nelas podemos descobrir pequeninas luzes que nos fazem ir até ao infinito, isto é, até ao limite das nossas forças, acreditando sempre que a Esperança é possível, embora tenhamos sempre que ter a consciência de que também a derrota pode fazer parte deste percurso, mas que também aí é ela que nos faz mover céus e terra nesta luta que travamos dia-a-dia.

Depois, em família, pude sentir o amor dos que também comigo partilharam esta etapa: irmãos e sobrinhos que comigo quiseram brindar à vida fazendo festa por esta vitória. Uma das minhas sobrinhas fez questão de fazer algo especial para mim. E foi tão bonito receber este gesto. Fez um pão, que entendo como sinal de alimento físico, mas também, e sobretudo, do Espírito de Amor que a cada momento se manifesta em nós e nos diz que não estamos sós e que vale a pena acreditar. São pequenos gestos destes que nos enchem o coração e nos dão ainda mais razões para querer viver.

A vida é tão bonita de se viver! Encontremos nos pequenos pormenores as razões para a abraçar e cantar. Veremos que tudo se transforma. Até o nosso coração.



domingo, 8 de julho de 2012

De que mundo somos?


Este foi o desafio lançado à Luísa e ao Valentim que durante um ano trocaram os seus olhares para o mundo que nos rodeia, tentando nesse exercício da escrita, mostrar-nos com o seu “ver para além do olhar” o modo como o sentem e vivenciam nos lugares onde vivem e pelos caminhos que percorreram e percorrem a Esperança que abunda nos seus corações e de que são eternos crentes de que ela é sempre possível.

E depois de um ano de troca de experiências juntaram um grupo de pessoas para refletir com eles este tema, para que em conjunto fizéssemos uma avaliação e encontrássemos pontos de convergência e nos colocássemos a nós próprios esta questão, no sentido de buscarmos um sentido para as nossas vidas.

Foi um dia em que a natureza que nos rodeava nos brindou com sua candura e ternura, e com a sua magia nos “assegurou” o silêncio necessário aos nossos corações para podermos partilhar tranquilamente.

E ouvimos coisas muito interessantes que não nos deixaram indiferentes e que, por isso, nos interpelaram e nos fizeram “olhar” o nosso interior para “vermos e depois agirmos”. Eis alguns dos desafios lançados a cada um de nós:

  1. “Fomos treinados para agir; reunimo-nos para saber como o fazer, mas não agimos”.
  2. “Nós temos que estar sempre com as pessoas, não as podemos abandonar. Podemos não ter resposta no momento, mas não as podemos deixar de mãos vazias, isto é, sem um sinal de Esperança”, mas uma Esperança atuante, que vai, interpela, busca e envia para encontrar soluções, que ensina a pescar em vez de dar o peixe, porque a Esperança passiva, que fica à espera de que tudo se resolva, essa não chega a lado nenhum a não ser ao “deixa andar” que não é de modo nenhum solução para nada.
  3. “Temos que agir com o nosso testemunho vivo, com a nossa vida”, não basta falar, é necessário agir. Agir de acordo com os valores que para nós são fundamentais e inerentes à nossa missão, que é a de irmos ver onde estão aqueles que, como diz Jesus no evangelho de Marcos 6, 30-44, andam no mundo como que “ovelhas sem pastor” e que nele encontram o olhar, a palavra e a resposta para as suas fragilidades. E aí ele desafia-nos, como o fez aos apóstolos, quando estes lhe disseram: “A hora vai avançada e o sítio é isolado. O melhor é que os mandes embora, para que vão às aldeias comprar que comer”. Mas Jesus respondeu-lhes: “Dai-lhes vós mesmos de comer”, isto é, àqueles que nos procuram ou se cruzam nos nossos caminhos não podemos responder como os apóstolos: “manda-os embora”, pelo contrário, temos que ver o que temos para podermos partilhar: o nosso coração, os nossos bens, a nossa Esperança. Não ter medo de ver o que temos e, sobretudo, partilhá-lo por muito pouco que nos possa parecer aquilo que temos. E quando, finalmente, somos capazes de “ver o que temos”, o nosso coração enche-se de alegria, porque se conseguir transformar e perceber que com essa nossa atitude “todos comeram e ficaram satisfeitos, tendo as sobras recolhidas enchido doze cesto”, no mesmo evangelho de Marços.
  4. “É sempre necessário correr riscos, ser fermento, enquanto a nossa vida, pouco a pouco, se vai convertendo em caminho de confiança e em lugar de esperança na Vida. Nada é imediato, nas verdadeiras decisões humanas, naquelas de que resultam uma mudança profunda”. E com o profeta Jeremias nós aprendemos a verdadeira Esperança, ele que nunca se submeteu ao desânimo, nem se deixou vencer pelo desterro dos seus irmãos disse-lhes: “Construí casas e nelas habitai, plantai pomares e comei frutos, casai e gerai filhos e filhas” porque “Deus quer dar-vos um futuro de esperança”.
O caminho para começar a transformação dos nossos corações é sempre o mesmo: ir à fonte beber da verdadeira água, a água viva que nos faz ter confiança na vida.

Aqui deixo um resumo muito breve do que foi este dia, não sem antes lançar em jeito de desafio a mesma pergunta que foi colocada a todos os presentes, e que é a seguinte: “O que é para cada um de nós a Esperança?” Oxalá tenhamos a capacidade e coragem de “ir ver” o que somos e temos, porque “Quando sonhamos sozinhos, tudo não passa de um sonho. Mas, quando sonhamos juntos com alguém, então o que se sonhou começa a concretizar-se” (D. Hélder Câmara).

E termino com um texto que acredito que é a resposta às nossas inquietações:

“De onde nascemos? Do amor.
Como nos perderíamos? Sem amor.
O que no ajuda a vencer? O Amor.
Como encontrar o amor? Pelo amor.
O que nos enxuga as lágrimas? O amor.
O que deve unir-nos sempre? O amor.”






quinta-feira, 28 de junho de 2012

"Pensamos sempre que a dor só acontece aos outros, mas quando chega a nós é difícil"

Este foi o desabado que hoje ouvi da "Joana" (nome fictício), cujo pai, no alto dos seus oitenta e poucos anos se encontra gravemente doente.

Um cancro que se espalhou rapidamente tem feito com que ande pelos hospitais em consultas, exames, operação, etc, que todos sabem ser esforços infrutíferos dada a gravidade da situação, mas que ele insiste em realizar, pois não desiste de lutar pela vida.

A "Joana" acompanhou-o nestas duas últimas semanas e hoje, regressada ao trabalho, quando lhe perguntei como estava o pai ela respondeu: "Vai andando, já lhe disse que agora tem que viver um dia de cada vez", acrescentado de seguida: "Pensamos sempre que estas coisas só acontecem aos outros, mas quando chega a nós é muito difícil. Estes dias em que acompanhei o meu pai ao hospital vi coisas que me incomodaram muito".

A dor e o sofrimento fazem parte da nossa vida, mas temos sempre muita dificuldade em encará-los assim pelo medo que isso nos pode trazer, o medo da morte, por exemplo, e pelo que isso implica na nossa vida, pois não estamos, nem fomos, preparados para lidar com eles de uma forma natural, como algo que nos pode trazer uma nova visão e sentido da vida.

E quando estes acontecimentos nos surgem sem contarmos, em cada um de nós, em algum familiar próximo como é o caso da "Joana" ou em amigos, sentimo-nos "perdidos" e muitas vezes interrogamo-nos: "Porquê eu, o meu pai ou o meu amigo? Que mal fizemos? Deus está zangado connosco e agora "mandou" esta doença".

Está profundamente enganado quem assim pensa. Deus não quer para o Homem outra coisa senão a sua felicidade. Ele não é vingativo, porque se assim fosse não morreria na cruz. Deus está sempre presente na nossa vida, mas nós andamos muito distraídos com muitos apelos feitos pela sociedade que nem damos por Ele e pela sua presença em nós.

E é precisamente nestes momentos que Ele ainda está mais próximo de nós. Escuta o nosso gemido de dor e afaga-nos com os seus gestos de Amor realizados através dos médicos, enfermeiros, da família (nosso maior suporte) e todos aqueles que caminham connosco.

A dor e o sofrimento não nos são "dados" para sofrermos por sofrer, porque é bom sofrer para "ganharmos" o céu, como se Deus fizesse da nossa dor um "negócio" para nos "ganhar" para Ele. São-nos dados sim para crescermos interiormente,  como uma oportunidade para mudarmos a nossa forma de estar e encarar a vida, de estarmos mais atentos aos que mais sofrem, aos que estão sozinhos e que até ali nunca tínhamos dado "conta" de que também existiam.

Também eu já fui operada a um cancro. Felizmente tudo está a correr bem. E esse momento foi de uma dimensão enorme para mim por tudo o que vivi, experimentei e vi junto das pessoas que naquela altura também percorriam os mesmos caminhos. Foi uma excelente ocasião para avançar sem medo, de acreditar que era possível vencer, de confiar nos que me tratavam e sentir que não estava só, que Deus estava comigo e se manifestava de tantas maneiras através da presença da família, dos amigos, sei lá, tantas coisas.

A Esperança, a confiança, a alegria devem ser sempre nossas companheiras de caminho e, enquanto o vamos percorrendo se olharmos para trás veremos quem está ao nosso lado, quem pegou em nós ao colo e nos aconchega nos seus braços. Ficamos maravilhados, seduzidos!

A todos/as que passam por experiências duras nas suas vidas fica o meu abraço de solidariedade e o desejo de que todos/as saibamos abrir o nosso coração para que tudo siga ao seu ritmo e não ao nosso, pois só assim a natureza pode realizar-se plenamente.

Um abraço de amizade

domingo, 24 de junho de 2012

"Vou para França, aqui já não posso estar mais"

A falta de perspectiva de um emprego, de uma vida mais digna e as dificuldades que dia-a-dia muitos dos portugueses sentem para terem uma vida minimamente estável, está a levar muitos ao desespero, à angústia, à falta de Esperança e a abandonar o país por não conseguirem, ou já não serem capazes, de encontrar soluções para poderem viver, senão mesmo sobreviver.

É o que um familiar meu vai fazer já a partir de Agosto. "Vou para França, porque aqui não aguento mais, não tenho hipótese nenhuma. Vai-me custar muito, mas tem que ser."

A trabalhar na construção civil, sector que está completamente inactivo, teve que encerrar a pequena empresa que tinha, despedir os funcionários e buscar outros caminhos.

E de novo "Ei-los que partem, novos e velhos" em busca de um futuro que pretendem que os alivie do peso das dificuldades e lhes permita conseguir algum dinheiro para enviar para a família porque, "aqui já não  aguento mais".

É importante poder estar mais próximo destas pessoas para que não partam "sós", com o sentimento de que não há futuro, não há Esperança. Não sendo fácil, é indispensável que o façamos, ainda que as palavras não sejam muitas ou nenhumas. Os gestos de Amor e a nossa presença no tempo que antecede, primeiro a partida, e depois, quando partem, creio que são essenciais para que se sintam mais serenos, tranquilos e com a certeza de que não estão sós, mas que têm a seu lado aqueles que os amam e querem percorrer com eles este caminho.

A ilusão é grande e a incerteza também. Mas o que deve permanecer é a vontade de fazer das fraquezas forças, e acreditar que os caminhos trilhados no meio das dificuldades podem ser uma oportunidade de mudança de vida que nos leva a encontrar um novo rumo para a nossa existência.

Crer num futuro melhor e ter a Esperança, a coragem e a força interior como companheiras de caminho é essencial e um passo enorme para a vitória.

A todos os que partem fica o meu desejo de que tudo corra bem e a certeza da minha presença.


domingo, 17 de junho de 2012

O meu blog


Criar um blog é expor-se aos outros. É dar-se um pouco de si mesmo e receber dos outros. É um desafio que nos lançamos a nós mesmos para chegarmos aos que se cruzam no nosso caminho e sermos Fonte de Vida uns para com os outros.

Neste espaço procurarei descobrir e partilhar "despertares poéticos de cada estação, nos dias plenos de luz como nas noites de Inverno".

Como nos diz o Irmão Roger: "Vai, caminha, um pé à frente do outro, avança da dúvida em direção à fé e não te preocupes com as impossibilidades. Acende um fogo, utilizando mesmo os espinhos que te fazem mal".

Ancorada neste desejo de "ser" para os outros, parto com a Esperança e a Alegria como companheiras de caminho.

A todos aqueles que se queiram juntar a mim nesta descoberta mútua digo "Sejam bem-vindos" e que partilhem aqui também um pouco de vós. Por certo que iremos descobrir coisas muito bonitas.

Abraço amigo