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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"Excelente"

Fui hoje a mais uma consulta no hospital onde estou a ser seguida a um cancro da mama, e não podia ter melhores notícias do que aquelas que recebi do meu médico assistente: "Excelente. As sua análises estão excelentes e os exames também estão excelentes", disse-me.
Ao fim de quatro anos e meio de uma luta, ouvir o médico dizer que se está "excelente" é algo que nos faz sentir tão felizes e nos dá uma força tremenda para continuar a caminhar, e ninguém pode imaginar como é mesmo tão bom ouvir este "excelente" ao fim deste tempo.
Este caminho não foi em vão, nunca é em vão, quando se luta por uma causa maior, mesmo quando não se vence. E vencer um cancro, grave, é ainda mais consolador e faz-nos olhar com um novo olhar para o valor da vida, para aquilo que é essencial e por que vale mesmo a pena lutar.
E o quanto não aprendemos neste caminho, meu Deus! Desde logo a ter a capacidade de acreditar que é possível ter esperança, que no meio da escuridão é possível descobrir a luz, que no meio da inquietação e da angústia é possível encontrar a serenidade e a alegria para ir até onde as nossas forças físicas nos levarem.
Eu tive sorte, tenho a sorte de que tudo esteja a correr bem, mas outras e outros há que não têm a mesma sorte, mas não são menos do que eu. Se calhar até são mais, porque lutaram até ao limite do que lhes foi possível, com uma dignidade que muitas vezes nos surpreende, vencendo medos, angústias e tantas outras dores que desconhecemos porque vividas a sós, no silêncio da alma. Estas e estes são e serão sempre para mim um exemplo de vida, pelo caminho trilhado, pela luta perdida contra algo mais forte, mas não superior e pelo testemunho que deixaram a todos os que tiveram o privilégio de os acompanhar e que tanto aprenderam. Rendo-lhes aqui a minha sincera homenagem. É o mínimo que posso fazer perante tamanho testemunho.
Daqui a seis meses volto, e, como me disse o médico, como faz os cinco anos "vamos mudar a medicação para que tudo continue excelente".
Saí da consulta tão feliz e, uma vez mais, percebi que não é preciso muito para o ser, basta uma palavra: excelente, e a nossa vida segue o seu destino cheia de alegria e ternura.

terça-feira, 26 de junho de 2012

"Mãe, quando saires da cadeia não vais ter a mesma vida"

Foi com esta frase que o filho mais velho da "Isabel" (nome fictício) a interpelou um dia em relação à vida que levava (fruto de uma vida dura, com uma família destruturada, que a levou a ser colocada muito nova numa instituição para meninas abandonadas a fim de ser "educada para a vida") que a "Isabel", na cadeia a cumprir a pena a que foi condenada, fez desta contrariedade uma oportunidade para ter uma vida mais digna e tem procurado estudar, instruir-se para que, quando sair, possa ter uma vida diferente da que teve até agora, e assim responder ao apelo do filho.
A "Isabel" esteve nessa instituição algum tempo e, ainda antes de completar os seus 18 anos, decidiu partir em busca de uma vida melhor, da felicidade a que tem direito mas que a vida ainda não lhe tinha deixado experimentar. Contudo, os caminhos escolhidos e percorridos foram também eles desalinhados, porque a "Isabel" na sua ingenuidade e ilusão próprios da sua jovialidade e desejo de ter a sua vida própria, cheia de "facilidades", como ela própria o refere, viu-se metida por caminhos que não escolheu, mas foram os que a permitiram sobreviver.
Depois de um casamento falhado e de ter um filho ao seu cuidado, casou novamente e teve mais dois filhos. Só que a vida pregou-lhe outra partida e foi vítima de violência doméstica de tal forma grave que, desesperada, outra solução não encontrou senão a de terminar com a vida do marido.
A "Isabel" levou consigo os seus dois filhos pequenos e é tão interessante observar o seu amor por eles. Dentro do que lhe é permitido acompanha-os sempre, busca o melhor para eles, para que aquele lugar não seja para eles um lugar "mau", de onde a mãe não pode sair, mas um lugar onde podem fazer amigos porque vão à escola, conhecem outras pessoas e constroem os seus próprios mundos e sonhos.
 
Conheci-a pessoalmente no sábado, a sua "1ª saída precária", e aquela pessoa "franzina" fez-me reflectir sobre o sentido que damos à nossa liberdade, aos valores que tanto apregoamos aos outros, mas que tantas vezes não são o espelho da nossa vida. E nestes 4 dias de "liberdade" levou consigo os seus filhos, foi ao encontro do filho mais velho e estava feliz.
 
Faltam poucos meses para a "Isabel" sair da cadeia para uma nova vida.E a reflexão que eu faço é esta: o que fazemos nós para nos desprendermos de tantas coisas que nos levam a outros géneros de prisões e que nos impedem de mudar o nosso coração, de ter um outro olhar sobre a vida, sobre as pessoas que se cruzam no nosso caminho?
O que é para mim a liberdade, a justiça, o respeito pelo outro, pela sua dignidade, pela sua vida? O importante é ser capaz de aprender a não julgar, porque ninguém sabe o que vai dentro do outro e, se Deus não julga ninguém, antes acolhe, abraça e faz festa pelo regresso do filho de novo a casa, como posso eu pensar que posso "apontar" o dedo ao outro?
Libertemo-nos de juízos e preconceitos antecipados e renovemos o nosso coração. Dar-nos-emos conta como a nossa vida se transforma e nos sentimos mais úteis e felizes, porque também fizemos os outros felizes.